quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Arte marcial não é defesa pessoal

Em primeiro lugar, arte marcial é uma expressão ocidental que não traduz exatamente o significado da expressão japonesa Budô. Segundo diversas fontes (já que a língua japonesa não é meu forte) o caractere "Bu" significa, literalmente, "parar a lança" ou "parar a alabarda". Eventualmente, encontramos traduções que dizem ser "parar o conflito" o correto. De qualquer maneira, a idéia central é parar uma agressão. Já a palavra "marcial" faz referência ao deus romano da guerra, Marte. Está diretamente associada à guerra e à violência (dois de seus filhos lhe eram seguidores e sempre se apresentavam antes do pai nas batalhas: Deimos, o terror, e Fobos, o medo). Arte marcial, assim, é a arte de guerrear. O sufixo "Dô" significa Caminho, caminho de vida, modo de vida. Budô seria, então, o caminho de parar a violência ou, talvez, o modo de vida daquele que pára a lança; enfim, o oposto da idéia que a expressão ocidental passa.
Dito isso, é importante definir o conceito moderno de Budô, ou melhor, o que o constitui. Budô é uma composição de defesa pessoal, ginástica(educação física), esporte, expressão corporal, treinamento mental e, até mesmo, prática espiritual. O conceito de defesa pessoal é bem mais simples: é um sistema que possibilita ao indivíduo, armado ou não, defender a si próprio de todo tipo de agressões físicas. É correto afirmar que todo Budô teve sua origem na defesa pessoal. Mas e hoje, tais sistemas ainda atingem seus objetivos? O Kendô, por exemplo, originou-se do Kenjutsu - a arte da espada samurai. Certamente era um meio adequado para um guerreiro que andava dia e noite com suas espadas na cintura, dentro e fora do campo de batalha. E no momento atual? Na maioria dos países nem sequer é permitido o porte de armas cortantes de grande comprimento (no Brasil a lâmina deveria ter menos de 15cm) e certamente a espada não é nada adequada para enfrentar o inimigo moderno. A arte marcial do Kendô, portanto, teria pouca utilidade como defesa pessoal. O Karate-Dô, em teoria, leva vantagem neste ponto pois foi criado justamente com o fim da defesa pessoal civil desarmada. Na prática, muito do treinamento técnico atual é ditado pelo contexto da competição esportiva que pouco tem a ver com a proteção pessoal. Além disso, o agressor que encontramos nas ruas hoje em dia é muito diferente do que se poderia encontrar em Okinawa quando a arte se desenvolveu. São exemplos de como duas artes marciais (Budô) extremamente eficazes em seu contexto original perdem (em diferentes níveis) seu valor como defesa pessoal. É fundamental que um sistema de defesa pessoal tenha conhecimento do inimigo que irá enfrentar (quem é, como age, quais suas armas, etc), que adote uma estratégia adequada à sua técnica e também à do inimigo(um plano de ação) e que o treinamento técnico tenha sempre em vista quais as armas e táticas do agressor (a técnica é treinada de modo que funcione com aquele adversário). Além disso, a prevenção sempre foi a primeira ação dentro da defesa pessoal e ainda ocupa, ou deveria, boa parte das reflexões de um artista marcial. Como vivemos num mundo "civilizado" regido por leis também é importante termos conhecimento dos aspectos legais do uso da força para que não nos tornemos os criminosos numa situação na qual iniciamos no papel de vítimas.
O treinamento adequado de qualquer arte marcial pode desenvolver no praticante qualidades e habilidades necessárias à sua proteção. A prática tradicional, com seus padrões estabelecidos, seus rituais e sua cultura própria é capaz (conforme a arte) de fornecer algumas das armas adequadas(como o preparo físico e mental para enfrentar a violência), mas dificilmente irá ensinar o modo adequado de usá-las no contexto atual da violência urbana. Jovens drogados, criminosos armados (geralmente com armas de grande poder destrutivo), gangues que se destacam pela violência extrema e gratuita e um sistema jurídico que parece proteger mais o agressor que suas vítimas não têm nada em comum com o Japão anterior ao séc. XX. Sempre que uma arte marcial se afastar de algum dos fatores elencados ela também se afasta da defesa pessoal. Infelizmente, sou da opinião que na maioria dos Dôjo não é dada a devida atenção a diversos deles, chegando mesmo ao desconhecimento absoluto de alguns destes fatores. A conclusão, óbvia, é que arte marcial não é, necessariamente, defesa pessoal.

Um comentário:

avi disse...

a conclusão do texto é que arte marcial é mais amplo do que defesa pessoal, sendo que um general americano em 2008 que analisa a situação de suas tropas esta praticando arte marcial Arte marcial tambem pode ser uma pratica folclórica com fundo terapeutico para o homem moderno simultaneamente gastar algumas calorias e cuidar da saúde porem sem grande eficiancia para "se garantir no braço" (kendo, shorin ryu, laydo, kobudo, etc).

Arte marcial PODE ser eficiente para aprendermos combate desarmado com maior eficiencia (jiu jitsu, boxe, muay thai, karate do) etc

Combate desarmado não é obrigatoriamente defesa pessoal uma vez que não inclui tecnicas de prevenção e evasão, é isso?

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